A anatomia do acidente de trabalho e os modelos de segurança

A anatomia do acidente de trabalho e os modelos de segurança

Falar de acidente de trabalho é falar de trabalho. E o trabalho é uma parte fundamental das nossas vidas, pois é nele que despendemos mais de metade do nosso tempo diário.

Falar de acidente de trabalho é falar de trabalho. E o trabalho é uma parte fundamental das nossas vidas, pois é nele que despendemos mais de metade do nosso tempo diário. Nesse sentido, é percetível que este exerce uma influência muito poderosa na nossa vida, pois interfere com as múltiplas dimensões que compõem a nossa existência. Nesta medida, em contexto organizacional a segurança e saúde no trabalho, o bem-estar e o equilíbrio emocional dos trabalhadores são, neste momento, a pedra de toque para as organizações que procuram encontrar elevados níveis de desempenho em contextos mais exigentes e complexos. Quando analisamos as variáveis nesta equação – 1, os trabalhadores e 2, o trabalho – compreendemos a relação ambígua que se estabelece entre ambas, tal como o desequilíbrio permanente de forças que se estabelece entre si.

Posto isto, se o trabalho é ou pode ser uma fonte de satisfação para os trabalhadores, também ele se pode manifestar sobre os mesmos com toda a sua fúria colocando em evidência o seu lado mais sombrio. Este lado mais sombrio do trabalho manifesta-se em contextos cada vez mais complexos e exigentes sob a forma de um acidente de trabalho.

O conceito do acidente de trabalho

Estes acidentes de trabalho podem assumir maior ou menor gravidade, com consequências muito elevadas para os trabalhadores e para as suas famílias. Para as organizações os acidentes de trabalho são eventos indesejados, mas a sua ocorrência é expectável de acordo com os modelos sistémicos de segurança (Reason, 1991).

As organizações, no sentido de mitigar a ocorrência de acidentes de trabalho devem adotar como prática, o investimento e desenvolvimento de processos credíveis de investigação e análise de acidentes de trabalho (Hollnagel, 2004). Estes processos devem promover a aprendizagem organizacional, de forma a evitar possíveis acidentes futuros.

Contudo, o que se verifica na grande maioria das vezes é que estes processos de investigação e análise de acidentes de tabalho não deveriam visar apenas a identificação de culpados, nem se deveriam escudar no erro humano para afastar a responsabilidade dos vários intervenientes envolvidos nos acidentes de trabalho.

Modelos de segurança

Para permitir a verdadeira aprendizagem organizacional devemos recorrer ao conjunto de variáveis preconizadas pelos vários modelos de segurança, selecionando um ou mais modelos de segurança garantindo a sua adequabilidade a cada um dos contextos organizacionais em análise. Nesse sentido, existem

  1. Modelos mais imersivos (modelos epidemiológicos ou sistémicos) e
  2. Modelos mais simples (modelo sequencial) com funções completamente diferentes dependendo da organização e do nível de profundidade pretendida nestas investigações e análises de Acidentes de Trabalho (Hollnagel, 2004).

Estas análises sistemáticas dos acidentes de trabalho devem ser realizadas por especialistas de segurança, habilitados e altamente treinados para o efeito e, com o apoio de equipas multidisciplinares que representem o sistema organizacional. A correta utilização dos modelos e técnicas de segurança permitem identificar e atuar sobre as causas dos acidentes de trabalho, através da adoção do conjunto de práticas organizacionais que promovam a cultura de segurança e a adoção de comportamentos de seguros por parte dos trabalhadores.

O papel das organizações aquando um acidente de trabalho

Em suma, cabe às organizações assumirem o compromisso de abraçar a segurança no trabalho como um valor para a organização e, desenvolver o conjunto de mecanismos necessários para atuar numa lógica preventiva, adotando as melhores práticas em matéria de segurança no trabalho. A multidisciplinariedade permite identificar e corrigir o que está menos bem no processo, através da correta utilização dos modelos e técnicas de segurança no trabalho que permitem caminhar para uma cultura de segurança sólida.

No entanto, não devem ser descurados os fatores contextuais, os fatores culturais, os fatores psicossociais, os fatores pessoais, a formação e o treino dos profissionais de segurança, das chefias e dos trabalhadores porque também eles se revestem de um peso muito importante em todo este processo de investigação e análise de acidentes de trabalho.

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